Crónica de um vírus - Dia 20: Vacuidade


Acordei às 5h30 da manhã, sentindo-me miserável. Em busca de soluções. O que faz um quarentão se tiver de recomeçar? Pela milésima vez, isto é. A quantas vidas terei direito? Quantos renascimentos, quantas oportunidades?

Aceito tudo menos o cárcere do escritório, os grilhões da secretária e a garra fechada do capataz. A morte lenta de definhar frente a um computador, babar-me em salas de reuniões e mortificar à mercê das doenças da modernidade. Escoliose, obesidade, miopia, tédio, desespero.

- Para mim, um tiro limpo nos miolos, se faz favor. À queima-roupa.

Prefiro as doenças tradicionais, talvez as tolere melhor. Possivelmente será a miséria o meu destino. Respiro de alívio com este pensamento.

- Mal-agradecido – dizem as vozes na minha cabeça.

- Não sabes o que é fome – insistem.


Não consigo evitar a satisfação de encontrar a vitória na derrota. O sobrevivente no campo de batalha. Dificilmente haverá escritórios com lugar para mim. Não me querem lá, guardam o lugar para os putos. Daqueles que ainda acreditam em contos de fadas, modos de vida americanos e trabalhar para vencer. Não derrotados da vida que acham que estão em cima quando estão na mó de baixo.

Nada parece bom, hoje. Sinto o corpo pesado, exactamente como dizem que o vírus faz. O vírus também desmoraliza ou serão apenas as pessoas quem faz isso? Não mata, mas mói. Ou mata e mói?


Saí para observar a macieira que plantei. Já floriu, mas não cresceu. Nela deposito esperança, nela procuro um sinal de que algo irá correr bem. Uma profecia que diga que não acabaremos a percorrer as avenidas desoladas do mundo, em farrapos, andrajosos, em busca de biscates trocados por uma côdea e um pouco de água. Tísicos, tuberculosos, desdentados e ainda mais subservientes. Esfomeados, esgotados e resignados.

Isso seria tão Séc. XIX e nós somos pessoas tão modernas e cheias de pose. Exigimos uma penúria à altura dos tempos que correm. Inclusiva, informatizada, adiposa, excessiva. Porque apenas estamos capacitados para lidar com os problemas do primeiro mundo. Não do segundo ou do terceiro. Doenças do excesso, morrer por indigestão, não por fome. Morrer da cura, não do mal.




Encontro-me rodeado de terra e não sei o que fazer com ela. Excepto pensar em nozes, dentes e Deus. A sua eterna piada que não tem piada.

Terra pouco fértil e quase nenhuma chuva. Enormes colheitas de frustração. Desânimo, desilusão e algumas dores de costas. Mão inchada contra a enxada na mão.

Ainda assim melhor do que a embriaguez e o embrutecimento geral da internet e da televisão até tudo terminar. Para acontecer o quê? Mais do mesmo.

Prefiro cometer os erros todos agora. Depois logo se vê. Havendo um depois. Algo de que não estou assim tão certo quando vejo velhotes que mal podem com uma bengala, usando máscara sozinhos. Afastando um mundo que já se tinha isolado deles. Uma existência que já estava confinada. Não é possível distanciá-los mais ainda do mundo, nem deles próprios. Não foi preciso um vírus para fazer isso, a nossa espécie fê-lo sozinho:

- Missão cumprida, homens e mulheres ideais. Escondendo os velhos, os fracos, os doentes, os feios e os diferentes conseguimos criar a raça perfeita. Onde é que eu já ouvi isto antes?


Não sei se este é o Começo do Fim, mas parece. A humanidade enfiada em fatos antirradiação com ar de Guerra Fria, máscaras com filtros e tubos a sair costas abaixo como num sci-fi industrial japonês dos anos 70.

Contei com um holocausto nuclear, com um meteorito repentino, um tsunami ou até mesmo um dinossauro gigante, mas não com isto.

Sinto-me com se estivesse numa colónia espacial maléfica, localizada num planeta cuja atmosfera é irrespirável. Ar venenoso. Todos os problemas do planeta Terra e nenhum dos benefícios. Alguns desses exploradores de fatos amarelos carregam cadáveres. Mesmo os que não o fazem, parecem aguardar por mais.

Não é que não mereçamos a penitência. Merecemos.


Desisti permanentemente de sair para comprar seja o que for, pelo menos a lojas onde trabalham as Pessoas-Escafandro. Lembram-me demasiado câmaras de gás e quimioterapia.

Fico por aqui. Dou mais uma volta e observo as ervas daninhas apoderando-se dos campos por lavrar. Os velhos, que são essencialmente os únicos a fazê-lo, não aparecem. Têm medo. As ervas não. Prosperam.

Mesmo o meu avô, uma das pessoas mais destemidas que conheço, tem medo. Todos temos medo, das mesmas coisas, de coisas diferentes, de estar perto dos outros ou de estar longe dos outros. Medo do medo e medo dos que não têm medo. Medo de que nada volte a ser como era e medo de que tudo volte a ser como era.

Assim, os terrenos ganham novas cores, ficando à mercê das malvas e das suas flores roxas, do vermelho das papoilas, do amarelo dos malmequeres e do azul da borragem. As abelhas e os pássaros deliram. Surgem em força, vitais, negras e rasantes. Sem uma preocupação no mundo que não seja meramente existir.


O céu ficou agora limpo, sem uma nuvem à vista. Distinguem-se melhor as gaivotas no céu, ao contrário das rolas que teimam em não abandonar o fio telefónico, excepto para roubar comida do galinheiro. Fazem uma grande algazarra nessas investidas, muito mais ruidosa do que a estrada nacional ao fundo. Essa permanece, semidesértica, quase silenciosa. Vou sentir falta do seu vazio, quando tudo terminar.

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