Crónica de um vírus - Dia 19: Deixa para amanhã


Chuva. Finalmente a chuva. O dia inteiro chuva. Aquilo que tantos esperavam, acontece finalmente. Não aborrece ninguém porque estamos todos em casa. Não é preciso refúgio porque o nosso refúgio é a nossa prisão. O abrigo é o cárcere, dois em um. Pague dois, leve três. Desconta-se o IVA. Promoção de pandemia.

O sofá, local pelo qual outrora ansiávamos para nos distanciarmos - do trânsito, do patrão, dos colegas, dos idiotas que nos chatearam duma ou doutra forma, de mais um dia de merda - é agora o sítio que não podemos abandonar. É proibido levantar o rabo do sofá. Condenados a dias sem fim de entretenimento e informação. Mais do que nunca, a viver projectando os nossos desejos no futuro. Num futuro que não sabemos se existirá. Em que moldes acontecerá. Ou quando.

O quando é de quando a quarentena terminar. Já não é:

- O que vais fazer estas férias?

- Quando te reformares, ficas a fazer o quê?

- Para onde vais este fim-de-semana?

É o que vamos fazer quando a quarentena terminar. Os sítios onde nunca fomos. Os sítios onde gostamos de ir e aos quais poderemos regressar. As pessoas que vamos abraçar, mas a que nunca demos grande importância. Os beijos que vamos dar a todos os que nos aparecerem pela frente. Se nos for permitido. Se nos permitirmos a isso. Não o que vamos comprar, porque pouco mais resta além disso neste momento: sair para comprar, comprar online, encomendar por telefone, pedir ao vizinho, ao familiar, ao amigo.


O único gesto que resta é o da compra. Manifestamos amor através das compras. Amizade através das compras. Solidariedade através das compras. Compramos solidariedade, amizade e amor. Não sobra mais nada. Se não se pode comprar, não está autorizado.

Inventamos compras como inventamos sentido. Assim também inventamos passeios e trajectos. De animais de domésticos ou de crianças. Corridas para escapar às quatro paredes. As mesmas que, passado tanto tempo já nos devolvem o nosso olhar vazio. Devolvem-nos a nossa frieza. A nossa distância. Paredes das quais juramos escapar, na primeira oportunidade. Para a praia, para o campo, para outro país, para outro mundo, para outra vida. Mudar tudo. Mudar de trabalho, de amigos, de família, de hábitos. De qualquer porra que nos tire deste filme. Passar menos tempo a olhar para ecrãs, do telemóvel, do tablet, do computador, da televisão ou do cinema. Depois. Não agora. Neste momento, essa é a rota de fuga mais eficaz. O condutor está dentro do carro, com a chave na ignição, o motor ligado, a primeira metida, o pé esquerdo na embraiagem e o pé direito no acelerador à espera que entremos para arrancar. Marcas de pneu no asfalto, cheiro a embraiagem.

Juramos fazer mais exercício, comer menos em restaurantes, ser uma pessoa melhor. Tudo coisas que não se podem fazer agora. Depois. Amanhã, para a semana, para o ano. Pós-quarentena. Agora é simplesmente sobre sobreviver. Ao vírus e o mais difícil, a nós próprios. À propaganda virulenta e ao tédio. Agora é para ser viral, não virulento. Viver ao longe, sem contacto. Ficar na bolha. Acenar à distância, atirar beijos para o ar. Fazer o gesto do coração, do agradecimento. Limitar o contacto ao essencial: produzir e consumir. Ser uma roda dentada, afinada, lubrificada e eficaz.


A chuva persiste, mas isso não impede os cães de serem passeados ou o desporto de ser praticado. Também saio. Vou por caminhos de terra estreitos e estradas secundárias. Não tenho nada a esconder mas também não quero relevar nada. Não me apetece ter de dar explicações a um homenzinho fardado acerca do que tenciono fazer:

- Obviamente vou fazer um golpe de estado. Mas não se preocupe que atiro os cocktails-molotov de longe. Não haverá contacto. E nem se vai notar o número de mortos, no meio de todos os outros. Podem atribui-los ao vírus, para ver se não arranjo problemas?


As praias continuam fechadas e as lojas também. Apesar de não haver muito mais para onde ir, os turistas resistem. Muitos nos parques de autocaravanas e nos parques de campismo. Alguns nos hotéis. Poucos se aventuram pelas ruas.

A chuva demorava a parar, abriguei-me assim sob a arcada dum prédio, junto a uma mota acelera e perto de um grelhador ferrugento. Era um bairro social onde passeavam várias pessoas de chinelos, pisando propositadamente as poças de água. Como crianças. Alguns carregavam sacos, outros não, mas todos iam para ou vinham de autocaravanas. Era certamente um estranho contexto para a cena, mas talvez seja preferível a atravessar meio continente até casa. Talvez não tenham alternativa. Ou talvez se estejam nas tintas.


Ocasionalmente olhava para o céu cinzento tentando perceber o movimento das densas nuvens. Fitava alternadamente a poça de água acinzentada no chão, para, através do reflexo, perceber a direcção do vento. E assim, se a chuva terminaria em breve. Não parecia querer oferecer tréguas nos minutos seguintes, por isso voltei para a casa, onde cheguei ensopado.

Como agora habitamos um mundo mono-temático, não se falam das reservas de água nacionais. Mesmo depois da seca que vivemos. Ou acreditam que não sobreviveremos tempo suficiente para nos preocuparmos com a falta de água ou que se sobrevivermos a isto, não vai ser uma seca a dar cabo de nós.

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