Crónica de um vírus - Dia 18: Para o bosque


O enredo adensa-se. A distopia complica-se. Cenas surreais multiplicam-se pelas ruas abandonadas à sua sorte.

Ontem vi um drone a sobrevoar uma aldeia perto daqui. Ao início ouviam-se vozes, amplificadas como através dum megafone. Pensei que fosse missa ou a carrinha dos atoalhados, afinal era a polícia a avisar para as pessoas dispersarem. Da mesma forma que o fazem nas manifestações, embora ninguém se estivesse a manifestar. Estavam apenas a existir. Sem máscara, talvez. Provavelmente na tasca à entrada da aldeia, onde tudo é desinfectado com medronho.

A voz no alto, como um deus antigo, intimidava:

- Todos os cidadãos devem regressar às suas casas. Os ajuntamentos são proibidos.

Três já não são a conta que Deus fez. São uma multidão, como no tempo do Avô Cavernoso, ainda que por motivos diferentes. Onde antes havia o medo da conspiração, há agora medo de contaminação. Mas medo. Sempre o medo. O medo da revolução, o medo da dissolução.

Nada que impeça os citadinos de rumar para sul, não obstante as limitações do estado de emergência. A polícia instalou barreiras nos principais acessos, ao estilo duma ditadura da república das bananas sul-americana. Fatos-de-treino adidas e bonés militares.


Fomos a um dos terrenos que os meus sogros têm nas redondezas, quase todos perdidos algures no meio do mato. Uma expedição em busca de medronheiros para plantar aqui no meu cantinho. Enfiado no meio de um bosque selvagem, cheio de espinhos e rochedos, lá estava um. Alheio a tudo, crescendo sem condições. É assim que gostam, de aridez. Deslumbrante, resistente, ele existia. A terra era barrenta, mas não estéril. Assim que cheguei, vi uma lebre a correr entre os arbustos, linda, em contra luz. Veloz e arisca, pouco interessada no que se passava fora do seu mundo.

O terreno tinha 3 andares. Um valado circundava-o e o dos pisos superiores erguia-se, imponente. Constituído por largas pedras cinzentas em vez das castanhas como é hábito. De aspecto intemporal, erguido por mãos mais fortes que as minhas. Outra cepa, outros tempos. Tudo aquilo de que fugimos para afinal o voltarmos a desejar.

Na periferia, junto ao valado, havia plantas que pareciam ter surgido duma alucinação de peiote. Possuíam grandes folhas rasteiras e carnudas e ao centro, uma vaidosa flor roxa. Trouxemos algumas para transplantar.

Ali, existiam espécies que não conhecia, com ar de serem bastante antigas. Encontrei também tomilho selvagem, perto de algumas árvores. Enquanto escavava em volta da raiz, surgiu um homem a cavalo. Se não fosse o burburinho da autoestrada ao longe, facilmente esqueceria os carros e todos os outros sinais de modernidade.

- Estou a passear - disse-nos, satisfeito.

Chamava-se Coelho, era o proprietário do terreno adjacente e também dono de um dos restaurantes mais famosos da zona. O qual não aprecio. Em vez de lho fazer saber, deixei-o continuar. Não estou assim tão desesperado por interacção humana. Na verdade, estou bastante habituado aos mínimos olímpicos desde que nos mudámos para o Sul.

Portanto, azar o teu, vírus. Sempre tentei ficar longe dos humanos. Viver numa espécie de Senhor das Moscas para adultos. Com menos conflito, mas no qual cada um de nós revela-se uma ilha. Colocando oceanos entre si e tudo o resto.


Fala-se em levantar o estado de emergência em Maio. A acontecer, qual será a primeira coisa que a maioria fará? Compras? Beber uns copos? Ir à praia? Ou fica tudo na mesma?

Muitos serão os que sairão disto com os nervos em frangalhos, provavelmente em pior estado do que qualquer vírus os deixaria. A televisão é definitivamente a droga da nação. E nem sequer dá uma moca muito boa. A maior parte das vezes oferece apenas uma gigantesca bad trip.

Aconteça o que acontecer, mantenho-me fiel à minha conversão 50% hippie, 50% redneck e 100% ermita. A menos que o vírus mais mortífero deixe de ser o humano.

Se resultou com Buda, Jesus e Zaratustra, porque não comigo?

Ir para o bosque viver deliberadamente. Sugar o tutano da vida.

Qualquer coisa menos isto.

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