Crónica de um vírus - Dia 17: Uma volta ao sol


Não foi isto que imaginei. Nenhuma das minhas fantasias do Fim Do Mundo eram assim. Havia armas, havia miúdas giras em bikini, havia cabedal, havia motas, gangs de punks, fogo e enxofre, anjos de asas negras e dava para surfar descansado. Na minha versão do Fim, havia sempre bicicletas. Porque é que nos filmes pós-apocalípticos ninguém se lembra de pegar numa bicicleta? Os carros estão todos partidos, há escassez de combustível e as estradas são perigosas. Vão buscar uma bicicleta. Os vossos pais não vos ensinaram a andar?


Nesta versão balofa, burocrata e nada sexy do Fim Do Mundo, não se pode andar de bicicleta. Excepto para deslocações. Lá se vai mais uma das minhas fantasias: instalar uma caçadeira de canos cerrados no guiador, um suporte para o bastão no quadro e um um coldre junto ao espigão. Não há zombies nem gangs, é certo, mas com tantos mascarados é difícil saber onde andam os verdadeiros criminosos.

O que parece haver é uma distopia mansa e um totalitarismo fofinho para nos proteger de nós mesmos. Que só quer o bem de todos:

- Toma o remédio, filho. Eu sei que sabe mal, mas faz bem.

- Tens de baixar as calças para conseguir por o supositório. Só doi a entrar, depois cura.

O pai tirano. A única forma de ser pai. Amor duro, coração mole, gente benevolente.


Um gesto tão corriqueiro como tirar macacos do nariz, tem agora de ser pensado. O crime premeditado de escarafunchar o nariz. O mesmo acontece com coçar o bigode ou esfregar os olhos. Apesar de todas os cuidados, de toda a ciência e de toda a soberba, continuamos sem acertar uma. Por mais medidas que se tomem, por mais precauções que se tenham, vamos falhar. É impossível conseguir fazer tudo bem. Ou mesmo lembrar de todas. Somos criaturas de hábitos, não mudamos de direccção apenas por estarmos em rota de colisão. Precisamos de um motivo mais forte. Mais imediato, mais visível.


Afinal, isto era suposto ter rebentado tudo em 2000. Era o Apocalipse, era o Armagedeão, era o Y2K e era o diabo de quatro. Estávamos preparados para O Fim. Como nos preparávamos para uma festa: de copo de champagne na mão, no local mais elevado das redondezas, aguardando das 12 badaladas.

- Festeja como se fosse 1999.

E nós festejámos. Mesmo sem saber quais seriam as fatídicas 12 badaladas. Se da Austrália, dos EUA, da Europa, de África ou da Ásia. Ficámos bêbados e eufóricos e embriagados com simbologia e fantasia.

Era apenas uma piada. Sabíamos que não ia acontecer nada só por causa duma data num calendário, ainda por cima mal feito.

Ainda assim, lembro-me de dar largas à imaginação. De pensar se, enquanto tudo se desmoronava, teria tempo para assistir à Queda, antes de ter os ossos triturados, a carne dilacerada e a alma esmagada no Holocausto.

Não que desejasse a morte, mas era mais fácil aceitá-la se a extinção fosse massificada. Se vos levasse a todos comigo. Ou achavam que iam ficar a rir-se?

É cobarde e egoísta, mas também é verdade. E humano. Também é típico de um super-vilão.

Depois, foi em 2012. Uma profecia Maia que decretava O Fim. Também erraram. Se soubessem alguma coisa de profecias, teriam evitado o ardil espanhol e o fim do seu próprio império.


Este pode não ser O Fim mas é bastante parecido. Apenas mais aborrecido. Pode simplesmente ser um fim. Do qual ninguém estava à espera. Veio de mansinho e apanhou-nos de costas. Ao jeito de um violador. Como um espectro, insinuou-se lentamente nas nossas casas, nos nossos hábitos, no nosso quotidiano. Até se apoderar de tudo.

O mundo não acaba certamente assim, talvez seja apenas o nosso Fim da linha. Isso não impede que celebre o meu aniversário hoje. Não chove e no meu aniversário chove sempre. Não chove e também não se passa grande coisa. Está tudo quieto. Os pombos, a repousar no fio, não se mexem. Não há carros nem aviões.

Sirvo uma aguardente para selar o pacto com a velhice. Daquela destilada numa garagem clandestino dum qualquer velhote perdido nas montanhas, que o meu sogro conhece. Sem rótulo, sem nome, sem código de barras. Como tudo devia ser.

- Parabéns, velho dum cabrão. Aguentaste mais um.

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