Crónica de um vírus - Dia 16: Benção do medronho


Os aniversários foram cancelados. O meu é amanhã e parece que o mundo não foi convidado. É justo, sempre mantivemos o distanciamento um do outro. Nunca quis apanhar com as suas gotículas e sempre usei máscara na sua presença. Portanto, faz sentido, esta concretização material. Não venhas, planeta, não estás na lista. Não adianta trazeres prendas nem vinho, não entrarás. Não vens à minha festa e eu não vou à tua. Sempre correu bem desta forma. Mantenhamos as coisas assim.

Mas bebo um medronho à tua, mundo. Bebo outro à minha. Outro ainda porque não vejo razão para não o fazer. Não há surf e não há possibilidade de passear os cães na praia, por isso bebo mais um só porque sim. E mais um para o caminho que não vou fazer.


Foram medronhos suficientes para pensar que, nisto como uma potencial segunda-vinda de Cristo. Que, para ter a certeza de que tudo correria bem, Ele enviou uma pequena praga para abrir caminho. Para ver se, desta vez, o escutavam realmente.

- Já tenho a vossa atenção? Guardem lá as cruzes, que não me enganam duas vezes.

Evitaria assim, uma série de problemas. Entrevistas em todos os canais televisivos, debates com bestas quadradas em mesas redondas para resolver problemas bicudos, explicar à exaustão a mesma coisa, infindavelmente. Se seria um impostor. Implicações nas flutuações da bolsa, análise da inflacção e das taxas de desemprego.

- Como vê o mundo, depois de 2000 anos de ausência? – perguntar-lhe-iam.

- Como um milagre. Apesar de vocês, ainda existe. Estou impressionado – responderia JC.

Os piores de todos seriam os adeptos das igrejas. Seriam os primeiros a chamá-lo de falso messias. A procurar os pés de barro, tão habituados estão a adorar bispos curvados pelo peso do ouro e falsos ídolos. Quantas beatas não o arengariam e cuspir-lhe-iam na cara quando o vissem passar na rua?

- Falso messias! Herege!

Quantos maridos não o espancariam gravemente?

- Vou ensinar-te a respeitar o nome do Senhor!

Bem depressa J.C. iria ter saudades dos romanos e do Calvário. Aposto que desta vez, nem se daria ao trabalho de ressuscitar. Até porque, competir com o coelho da Páscoa não deve ser fácil.

Entre os que acreditassem nele, não seriam poucos os pedidos de toda a ordem. Desde milagres até dinheiro, passando por truques baratos de mágico de rua. Alguns contentar-se-iam com transformar água em vinho. Afinal, beber vinho é dar pão a um milhão de pessoas. Já outros, exigiriam que curasse todas as enfermidades. Desde unhas encravadas até SIDA.

Só para a quantidade de doenças diferentes que existem, precisaria de uma especialização em medicina. Ou de um assistente. Já não é como no tempo dos romanos, em que havia duas ou três doenças. Possivelmente precisaria de um sistema de triagem.

E claro, o pedido principal seria para curar o vírus.

- Os caminhos do senhor são misteriosos e tortuosos – diria ele.

- E a quantidade de pessoas que estão a morrer? Faz parte do plano de Deus? – insistiria alguém mais atrevido.

- Mesmo que caminhem pelo Vale da Sombra, não temam nenhum mal.



Possivelmente diria que a culpa do que está a acontecer é nossa. Não de um chinês que queria dar uma trinca numa asa de morcego. Ou de um desgraçado que não lavou as mãos quando foi ao mercado vender uma iguana. Não é mentira que por esses lados, levem qualquer coisa à boca, especialmente se for frito. De baratas até lesmas, marcha tudo.

Mas a culpa agora, não morre solteira. Está a participar numa gigantesca orgia. Todos os que contribuíram para o mundo ser o que é e todos os que permitiram que isso acontecesse, precisam de penitência. E ela aí está. Estamos todos atolados na mesma areia movediça, mesmo que alguns olhem para o lado para ver se o parceiro está contribuir ainda mais nos soterrarmos. Um enterranço à escala global.

Esquecemos as outras doenças. Esquecemos o coração, o cérebro, os rins, o fígado, os intestinos. Ninguém está doente, porque a pior doença agora é ter de visitar o hospital. A comida de hospital ser uma porcaria, já nem chateia. Rasgar o peito ou amputar membros nem entra nas contas.

- É o vírus, é o vírus, vou-te devorar, assassino eu sou.


Ocasionalmente, passam aviões sobre a nossa casa em jeito de ensaio da normalidade. Mas é por ser um acontecimento tão raro, que me apercebo dele.

Não se viaja, não se passeia, não se faz nada. Quietinhos nas trincheiras, a ver se o inimigo passa sem se aperceber da nossa presença. Se possível, tapem-se com os corpos dos vossos camaradas, para que vos tomem por mortos.

Há governos a aproveitarem-se deste cenário, para dar largas à imaginação totalitária.

Orwell deixou um manual, não um livro de ficção.

Silenciar a oposição, esmagar a contestação, controlar a população. Com tons vermelhos, negros ou azuis, pouco importa. Claro que a China funciona bem, é uma ditadura. Já os americanos, fazem corrida às armas. Contra um vírus? Aquela gente usa armas para tudo, agora não seria diferente. Ainda ninguém se lembrou de roubar velhotes? Bastava tocar à porta e fazer-se passar por médico. Umas falinhas mansas, um cartão falsificado e é só entrar e servir.

- E caluda, se não contagio-te. Onde está o ouro? As jóias? O dinheiro que sei que tens aí guardado na gaveta das cuecas.

Carreguem as caçadeiras, soltem os cães, reúnam a milícia.

- Sai do meu terreno, forasteiro. Antes que eu dispare.

Faz sentido combater o hospedeiro em vez do vírus. Nós, que temos a capacidade de tornar tudo infinitamente melhor ou insuportavelmente pior. Conseguimos ter o mais incrível gesto de solidariedade com uma mão enquanto, com a outra, apunhalamos pelas costas.


Apesar de não estarmos enfiados em casa o dia todo, tanto a Patroa como eu, estávamos a precisar de espaço entre nós. Aqui é fácil, basta ir cada um para seu canto do terreno. Já todos os que não têm essa possibilidade, terão problemas muito maiores que um vírus. Aprisionados em 70 ou 90m2. Encurralados entre as coisas que compraram e a família que formaram.

Cercados, mas impossibilitados de se isolarem verdadeiramente. Contemplando as fotos familiares de tempos mais felizes, suspirando para que o mundo volte ao que era. Alguns, não aguentam mais. Atiram-se da janela do 8º andar, outros dão um tiro na boca e outros ainda, cortam os pulsos. Assassinam a família, disparam furtivamente da varanda contra quem está na rua, colocam um colete de explosivos e entram num hipermercado. Qualquer coisa para acabar com isto.

Esqueceram-se que o mundo já era uma merda antes. Todos os dias reflectido nas gigantescas filas de trânsito, nas contas para pagar, nos patrões idiotas, nos clientes chatos, nos políticos e dirigentes corruptos e exploradores.

É verdade que, ao menos, dava para um ir beber um copo com um amigo e descarregar. Partilhar a dor. Aliviar a frustração. Comer uma bucha e falar mal da família. Do governo, do nosso clube, dos outros condutores, das celebridades, dos vizinhos.

Agora a nossa esperança está no governo, o nosso clube não joga, quase não há carros na estrada, as celebridades revelaram-se tão enfadonhas como nós, os vizinhos já não parecem tão irritantes e a nossa família é tudo o que resta.

Entre a cura e o mal, é difícil perceber qual será pior.

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