Crónica de um vírus - Dia 15: Morrer como uma árvore


Oiço bastante menos carros a passar ao longe, na estrada nacional. Também os oiço passar ainda mais rápido do que habitualmente. Muito mais depressa. Nunca vi tanta urgência sem objectivo. Será uma maneira de contrariarem a estagnação do mundo, acelerarem? O desfrutar duma possibilidade temporária ou o aborrecimento com o mantra de ficar em casa.

Mesmo nesses carros onde a maioria leva apenas o condutor nas suas entranhas de metal, há quem utilize A Máscara. E luvas, claro. São inseparáveis, pelo menos por agora. Têm medo de si próprios. É uma defesa para o caso de se aproximarem demais. São pessoas que sempre quiseram ficar longe de si próprias, portanto é natural que queiram proteger as outras. Reconhecem o que nós, os outros, ainda não percebemos: que somos todos virulentos. Com mortalidade a 100%.

Não é só as ruas estarem vazias que empresta um carácter apocalíptico aos nossos dias, é porque tantos utilizam luvas e máscaras. Quem não o faz, é louco. O Rei ia nu, agora ainda vai. Mas leva máscara.

São as aberrações que não utilizam máscara, não o oposto. Somos tóxicos, venenosos, contagiosos, perigosos. Sustenham a respiração, sustenham o pensamento. Não toquem em nada, muito menos nos outros. Nem sequer olhem para nada.


Na estrada, em frente do nosso portão, o movimento dos carros é quase inexistente. Antes, os carros e as carrinhas de entregas passavam demasiado depressa, criando um ruído incomodativo. Criava a ideia de movimento. De fim do deserto.

Agora, oiço o meu galo cantar, cristalino, sem interrupção. Entre a dança dos loendros à mercê do vento primaveril de leste, erguem-se ao longe os ciprestes, na montanha. Talvez por serem árvores normalmente associadas a cemitérios, a sua fileira outorga um tom sinistro à paisagem. Lúgubre e tétrico.

Não há nenhum som sobreposto ao grasnar das gaivotas, que mais parecem cães a ladrar. Sempre que o estado do mar não lhes agrada, refugiam-se no muro em frente. Destemidas. Hoje é um desses dias.


Na última hora, a única pessoa a passar por aqui foi a senhora teimosa que vende laranjas à beira da estrada. Lá, continua com a toda a família - marido, sogra, filha - encostada à Ford Transit cinzenta e cor-de-vinho, com o mesmo ar entediado de sempre. Com vírus ou sem vírus, o seu mundo é sempre cor-de-laranja. Acredita que, neste clima de paranoia, haverá alguém a encostar o carro à berma para comprar 5kgs de laranjas por 3€. Provavelmente está certa. Porque temos de fazer o que temos de fazer. E nem a morte nem o amor conseguem mudar isso.

Se ela não for vender laranjas todos os dias, o que restará? Uma casa, um sofá e uma televisão. Mais uma passageira na espiral de loucura. As laranjas provavelmente estragar-se-iam. Não tem ar de procurar refúgio na internet. Nunca a vi sequer olhar para o telefone. Nem tão pouco ler um jornal. Apenas contempla o que está em frente.

Se olhasse para trás, veria um gigantesco cartaz que alerta para os perigos do vírus:

- Fique em casa.

- Desinfecte as mãos.

- Utilize máscara.


Agora que os galos se silenciaram, escuto diferentes cantos de pássaros que gostaria de saber identificar. Pelo som, imagino-os pequenos. Talvez pardais. Regra geral, os papa-figos, os gaios os melros tendem a efectuar ataques cirúrgicos às nossas árvores, sem emitir um som. Nem sequer são fáceis de ver, entre as copas frondosas.

Por aqui, negócio como sempre. A enxada continua a entrar na terra, dura e árida, com a regularidade habitual. O trator continua a lavrar. Antes que isto se torne o império das daninhas e pareça mais um canto abandonado do planeta.

Olho em volta e chamam-me a atenção a minha roupa a baloiçar na corda, sincronizada com a cama de rede que Ofélia apelidou de baloiço. Pergunto-me se isto poderá ser um vislumbre da eternidade. Um local onde estão as nossas raízes, mas nada mais. Imagens em loop, insignificantes, espontâneas e quotidianas. Sem nunca nos apercebermos realmente disso. De que não e a transição de uma coisa para outra, é apenas aquilo que existe. Não me movo, tentando que o momento dure, mas já o estilhacei quando pensei sobre ele.


Ontem, Afonso, o meu sogro, um pilar de força se alguma vez houve algum, estava abatido. Afectado por tudo isto. Com um olhar temeroso, quase aguado. A beber cada palavra do noticiário. Sem chamar aldrabão ou gandim a alguém. O seu receio era claramente visível. Ele, que nunca demonstrava receio de nada. Que quando trabalhava na sua unidade fabril, altura em que não o conhecia, não parava ante coisa alguma. Pelo menos, é assim que gosto de imaginar. De macacão azul, botas de biqueira de aço, a trabalhar gigantescas peças de metal. Um viking lusitano da modernidade. Tudo suportando, tudo aguentando. Nem patrões nem crises nem uma viga a esmagar-lhe o pé, nem a morte do pai, absolutamente nada o impedia de fazer o que tinha de ser feito. Depois de se reformar e trocar o metal pela terra, continuou igual. Mesmo ontem, fragilizado e desmoralizado, colocou vigas para que as pitaias pudessem crescer em volta delas.

Decidi então tomar o assunto nas minhas próprias mãos e relativizar a coisa.

- É só mais uma vez que estamos frente a frente com o abismo, Afonso – disse, sem introdução.

Bem tentei desligar a televisão antes do almoço, sobretudo porque era o aniversário de Ofélia. 4 anos. 4 anos precisamente quando se assinala o fim de uma era. Uma celebração a 5, com as restantes pessoas reduzidas ao tamanho que o ecrã permitia.

Prendas simples. De qualquer das formas, ela parecia feliz. Alheada de tudo, como deve ser.

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