Crónica de um vírus: Dia 14 – Luta de classes


É demasiado cedo para fazer piadas? Ou já é demasiado tarde?

Alguns parecem pensar que é cedo, mas a aceitação varia consoante a fama do autor das graçolas. Quanto maior a fama, maior a aceitação. O que se tolera dum cromo da bola ou de um artista das novelas não se tolera à família e ao vizinho do lado.


Eu entendo. Respeito o terror da morte, já que também o sinto. Mas se o resultado é a paralisia e a incapacidade de continuar, torna-se inútil. É mais que altura de fazer as pazes com o facto de, eventualmente, termos de morrer. Mesmo depois um trabalho exímio a enterrar isso sob pilhas de coisas para fazer: trabalho-compras-casa-família-férias-sair. Não há como nos distrairmos com as trombas enfiadas num power-point de actualizações ao segundo do novo estatuto humano: infectado. Invasão, pilhagem, saque, violação, contágio. Política de terra queimada. Infecção.


Este não é um estigma novo, já tem provas dadas com a SIDA, quando era a doença dos maricas, dos drogados e das putas. Até percebermos que não. Não somos imunes. Cada um à sua maneira, não passamos de maricas drogados. Na melhor das hipóteses, não praticantes. Todos a mesma miséria, a mesma podridão, o mesmo vício. Pouco importa o que entra no orifício anal ou na veia. Pilas, seringas ou vírus. Não faz diferença.

Na nova versão da epidemia, os maricas e os drogados são os idosos e os imunodeprimidos. As novas classes na luta de classes. Com uma letalidade mais imediata e mediática. Uma outra forma de nos colocarmos uns contra os outros. Os irresponsáveis que não ficam em casa contra os heróis que ficam em casa a todo o custo. Excepto para o estritamente necessário, que pode ser qualquer coisa, desde comprar um papo-seco até passear o cão ou comprar tabaco. No fundo, tudo fica na mesma. A cumprir na forma e a abrir excepções no conteúdo. Menos para os outros. Não há excepções para os outros. Não há misericórdia para os outros. A esses, não é permitido errar. Pelo menos da mesma forma que nós erramos.


Um merdoso filme de zombies série B mas sem zombies. Com um argumento mais esburacado que um queijo suíço. Actores piores que os do porno mais caseiro, rasca e manhoso. Apenas um estranho fim-do-mundo que finalmente nos impede de acreditar que governamos a natureza. Que toda a existência se deveria ajoelhar ante o nosso poder. Não fazemos puto de ideia do que andamos para aqui a fazer. Nunca se deixem convencer do contrário.


Desde que moro no campo e me levanto todas as madrugadas para uma terra rubra pontuada por densa folhagem, onde tudo o resto parece um longínquo rumor, aprendi o que é agradecer. Pelas coisas simples. Não me sinto mais perto da extinção do que antes. Essa é uma bomba-relógio ligada às nossas células, faz parte do nosso DNA. Podemos evitar o que podemos evitar mas não podemos evitar o inevitável. Nem sequer adiar. Coisas diferentes para pessoas diferentes. A justiça, não é o homem que a faz. Nem as leis.


Ontem quando saí, não vi praticamente ninguém no exterior. Não sem um cão. Sortudos. Vida de cão é agora, melhor do que nunca. Já devem obrigar os bichos a beber água para sair alguma coisa quando urinam.

Claro que já se anuncia a tempestade de merda que se segue a esta. Milhares de desempregados e uma grave retracção no consumo. Reinventar é que não. Continuemos neste ridículo caminho da desgraça, mergulhando no abismo. Desde que haja dinheiro no bolso para um copo e um cigarro, qualquer lugar é bom para assistir ao planeta mergulhar na destruição. E dar um empurrãozinho também, claro.

Rapidamente ficaremos sem alimentos devido ao aquecimento global e à erosão dos solos. Mas somos tão espertos que fabricamos comida em laboratório. Como fabricamos doenças. E curas. Dois lados da mesma moeda.


- Sinto-me em paz – declaro, em jeito de declaração de guerra.

Calaram-se. Finalmente calaram-se. Oiço apenas a celebração das andorinhas sob o azul do céu pontuado por algumas nuvens com cara de algodão doce. O rumor distante de carros solitários. E uma avalanche de silêncio. Abençoado.

Isso pode mudar rapidamente mas por agora é assim. Não vale a pena ser infectado pelas notícias. Trocar isto pelo ruído dos corpos a tombar no chão, pela sinfonia do dinheiro a entrar em caixa.

Ao contrário da maioria, não penso nisto como uma guerra. Mas se for, lutamos contra nós mesmos. O pior adversário que jamais poderíamos imaginar.

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