Crónica de um vírus: Dia 13 - Reinar no inferno



O número do azar. Se fosse possível haver mais azar do que este.

Exagero, pois, na verdade já passei pior. Pode parecer incrível, mas já tive pior e a pagar.

Há muitas vidas atrás, quando trabalhei numa multinacional de químicos industriais e medicamentos. Ambas coisas que adoro. Viver nessa contradição era tolerável, pelo menos até certo ponto. Mesmo que todas as fibras do meu ser e todos os pelos do meu cu se contorcessem em sofrimento. Havia que contar quantas vezes ia à latrina. Ou quantas vezes me levantava da cadeira. Muito pior do que a escola, sendo a única vantagem, o facto de receber ao fim do mês. Proibido trabalhar a ouvir música, apenas podia utilizar um dos dois auriculares. Antes o despedimento, do que ser forçado a ouvir metade do stereo. Que insulto ao esforço dos músicos. Este era o facto mais intragável. Não havia como suportar aquela escravidão, a não ser coberta de ruído. Música alta e ensurdecedora. Ouvir 5 minutos que fosse das conversas dos outros, era o suficiente para desejar o desemprego. Ou a penúria. Certamente, o isolamento.


Pior era o histerismo de inspiração protomachista da chefe. Mais idiota do que qualquer besta do sexo masculino, já que ela claramente se modelara nos píncaros dessa imbecilidade. Não havia planalto, nem como achatar a curva. Era uma imparável linha ascendente.

Obviamente, por ser mulher, faltava o alívio de sonhar com enfiar-lhe um murro nas ventas. Ou talvez presentemente, esta fosse uma prática inclusiva. Se desejar bater num homem, devo desejar também bater numa mulher? Ou estão ambas erradas? Dois errados fazem um certo? Não sei, é demasiado complexo para perceber. Mas o sonho de aplicar um gancho naquela fuça de fuinha, estava lá. Ainda está, passado tantos anos.

Outro dos grandes sofrimentos era olhar pela janela, através das pequenas e escassas zonas que não eram opacas, e ver os rituais de primavera a desenrolar-se. A beatitude dos raios solares devorando o império de betão, alaranjando-o. A expedição dos melros, buscando as migalhas dos pequenos-almoços dos trabalhadores.


Desejava estar em qualquer local, menos naquele. Preferia ser o varredor de ruas. Como eu o invejava, de auriculares, sozinho, ao ar livre. Sem nenhum latifundiário ou senhor da gleba no controlo, a cada minuto que passava. Podia simplesmente abrir a braguilha e despejar a bexiga onde mais lhe aprouvesse. Nada de gráficos, reuniões ou power-points. Nada de CEOs, KPIs ou SLAs. Apenas lixo do bom, do real. Malcheiroso e feio, mas não apodrecia a alma.

Nessa altura, tinha dinheiro mas, faltavam muitas outras coisas. Agora tornei-me no miserável que sempre soube ser, mas ninguém conta a quantidade de vezes que vou mijar ou quantos cafés bebo. Sem dúvida que prefiro esta quarentena a outras que já vivi. Mesmo com tudo o que lhe é inerente. Ao menos agora, é possível descortinar um objectivo, talvez até uma saída. Mesmo com as argoladas típicas dos governos Ao menos estou no meu canto, onde pertenço. Eu e a imprevisibilidade dos dias. Plenos de espuma.


Que estoire a economia. Que estoire e que soframos até saber viver sem dependência da autoridade. Rebelem-se contra as figuras parentais. O Pai-Governo, o Pai-Patrão, o Pai-Padre. Em uníssono. Pelo menos aqueles de entre nós, que não anseiam por regressar às vidas alheias, projectadas no futebol, nos gadgets ou na comida rápida. Deixai-os. Quantos não aspiram agora a ser donos de um pouco de terra? Para cultivar, para apreciar o ar livre sem ter de dar explicações.

Estado de sítio, lei marcial, pandemia, calamidade. Fuga dos apartamentos. Ficar longe da caixa onde se dorme, caga e fode. Sair dessa para outra, onde se faz dinheiro. E dessa para uma outra, que os leva da primeira, para a segunda. Saiam da caixa. Pensem fora da caixa. Rasguem a merda da caixa e tirem o presente duma vez. Sem cuidados com o embrulho, sem preocupações com a sujidade. Já é altura. Talvez seja sair da frigideira para o fogo, mas antes reinar no inferno do que servir no céu. Resultou com Lúcifer. Já dos restantes assalariados celestiais, ninguém se recorda do nome. Mas o do Estrela da Manhã? Inesquecível! Tenham apenas cuidado com o orgulho.

Talvez esteja a levar isto com um ânimo demasiado leve. Mas nunca me apercebi de haver histeria colectiva quando os africanos caiam que nem moscas devido à fome. Nem com os mortos de tuberculose, de ébola, da gripe, ou da exploração capitalista. Dos atentados no Médio Oriente. Tudo vidas de segunda linha.


A vida continua e o dia avança alegre. Inspiro o odor primaveril e agora, que cessou o vento de leste dos últimos dias, pego na bicicleta e pedalo pelas estradas desprezadas do litoral. Rindo-me por dentro, dos dedos que se apontam à minha passagem. Das críticas de irresponsabilidade. Parece-me mais irresponsável ficar fechado em casa 24h por dia. Mas não sou um especialista, perguntem a um. Sair apenas para ser consumidor é o sonho molhado do capitalismo tecnocrata. Se possível, nem para isso.

Sento Ofélia na cadeira de bebé da bicicleta e arrancamos, sentindo a brisa na pele, pela qual ansiava.

Amanhã, ela fará 4 anos. Sem poder ver os amigos da escola, ir ao parque infantil ou visitar lojas de brinquedos. É assim que se salva o mundo, dizem-me. É por todos, afiançam. Tem de ser, reiteram.

Sempre desejei oferecer-lhe um mundo ligeiramente melhor que este. Pelo menos, não tão mau. Esta é a calma antes da tempestade ou estamos mesmo no olho do furacão?

- Não sei, querida Ofélia, mas feliz aniversário. Espero que gostes do mundo pós-apocalíptico que vais herdar. Pensa nele como uma oportunidade para tornar tudo melhor. Mesmo que não te deixem abraçar os amigos, beijar a família, sentar-te num banco de jardim, dar um passeio na praia ou simplesmente existir. Tudo actividades de alto risco.

- A salvação será pior que a queda.


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