Crónica de um vírus - Dia 1 / 11.03.2020

Atualizado: Fev 8


Há um silêncio novo. Nunca existiu um silêncio assim. Pelo menos, não para maioria das pessoas, embrenhadas nas suas vidas cheias de compromissos, reais e fictícios.

Lentamente as máquinas começam a parar. Primeiro os carros, depois os barcos, a seguir os aviões. Entretanto, já parou o resto da maquinaria, desde os caterpillars até às caixas registadoras. Com elas, também param as pessoas que as operavam.

As grandes praças encontram-se vazias. As movimentadas avenidas também estão vazias. As salas de espectáculo, os estádios, as bibliotecas, as lojas, tudo vazio. Os hospitais, esses, diz-se que estão cheios. Alguma vez terão estado vazios?


As pessoas recolhem-se, como num inverno nuclear. Evitam o contacto umas com as outras. Como se tivessem apenas agora realizado que somos animais transmissores de vírus, bactérias, doenças, miséria, merda e morte. Sempre o fomos, sempre o fizemos. É isso que, representamos uns para os outros. Feras letais, predadores da pior espécie.

Agora, até um olhar é demais. Todos se refugiam ainda mais no interior. Das casas e de si mesmos. Ninguém oferece confiança, um bem escasso e precioso. Nem sequer os bons dias se dizem a quem passa.


Cada um de nós, emboscado por potenciais assassinos. Cercados em todo o lado. A ameaça invisível. Onde antes existia segurança, apenas existe medo. Quando não ódio.

Tossir é um acto criminoso; assoar, uma potencial sentença de morte.

Cria-se um ghetto para os doentes e outro para os não doentes. Impuros e puros.

A única coisa que agora cresce mais rápido que o capitalismo, é o receio. Mais rápido do que a destruição e o ego humanos. Temos finalmente, uma muito vaga ideia do que terão sentido todas as espécies que torturámos, violentámos, explorámos e extinguimos. Nós, a espécie mais evoluída. Tão evoluída que nem consegue conceber haver noutros planetas, espécies ainda mais evoluídas. A única espécie com um polegar e consciência de si mesma, reduzidos à nossa verdadeira bestialidade por fantasmas. Seres intangíveis, como uma assombração.

V-Í-R-U-S. Digam comigo: V-Í-R-U-S


Vejo desfilar perante mim, todos os filmes pós-apocalípticos que já vi. Apesar de nenhum mostrar açambarcamento de papel higiénico. Estariam os açambarcadores de papel higiénico à espera de se borrar de medo? Ou de terem diarreia de toda a fast-food que compraram para a quarentena?

Todos os clichés acontecem. Os americanos fizeram corrida às armas, os europeus à comida. As cidades parecem espelhar a nossa extinção. Será este o nosso fim enquanto espécie? E se for, não será justo?


É difícil escapar do pensamento de culpa. Talvez fruto de uma sociedade judaico-cristã.

Quando os noticiários fazem actualizações ao minuto sobre o número de infectados e de mortos, como estatísticas dum jogo de futebol, o medo torna-se um vírus ainda mais perigoso e contagiante. Sem dizer mais nada, os meios de informação parecem querer dizer apenas uma coisa: é uma questão de tempo até seres o próximo. TU VAIS MORRER A SEGUIR. Não toques em ninguém. O amor é uma emboscada.

Talvez seja. Tenho algum medo, mas nem todo é meu. Muito é fabricado.

Nós somos o pior vírus que este planeta já viu. Não fomos mais que isso, pelo menos até agora. Destruímos o nosso planeta e agora queremos destruir outros. Obviamente precisamos de uma lição de humildade e parece que só aprendemos à bruta. Ou talvez, nem assim.


Mesmo que haja uma vacina ou um comprimido milagroso, tudo repetir-se-á novamente. Desta ou de outra forma. Mesmo os deuses nos abandonaram há muito, à nossa sorte.

Mas por nós tudo está bem, desde que a morte seja lenta e imperceptível. Rápida é que não. Tabaco, comida processada, emissão de gases poluentes: tudo bem. Vírus e ataques cardíacos fulminantes é que não. Deixem-nos existir com a possibilidade de mudar, sem nunca o chegar a fazer.

As escolas irão certamente encerrar e com elas muitas empresas. Os eventos já foram cancelados. Nada de concertos, festivais ou recitais. A cultura não enche barrigas, já o futebol, talvez o faça.


Queremos derrotar o vírus. Mas será isso o melhor para a humanidade?

E os vírus derrotam-se, como inimigos?

Não quero morrer. Nem agora, nem nunca. Mas que sou eu no grande esquema das coisas?

O que somos todos, se não carne em vias de putrefação e, matéria fecal?

O que fomos enquanto espécie, se não um vírus?

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