• Cobramor

A última bala

Atualizado: 12 de jan. de 2018


atrás das pálpebras

o manto azulado cobre todas as coisas

uma respiração pesada e lenta

no peito arquejante

encontra protecção nocturna no tecido fresco

sobre os nervos sobre a pele sobre pele sobre os nervos

estranhos ruídos polulam o isolamento

cansámo-nos de tudo e sobretudo da pressa

cativos da tentação

domesticados por violentas fantasias de possessão

as almas sangram para a boca

escorrem abandonados os troncos guerreiros em repouso

as praças onde nos conhecemos são invadidas pelo vento

e é no relógio que se esconde a morte


esquece-me

o suficiente para impedir um regresso pois

não renasceremos nos círculos

não renasceremos na perfeição

algo terá de acontecer

enquanto descansamos

fabriquemos uma nova identidade

um novo corpo

contaminando a felicidade:

lama que sufoca a garganta

e impede o grito final


que as putas dancem connosco

e os guardiões que bebam

que as crianças sejam libertadas

os poderosos enviados para o cadafalso

desnudem os monges

enquanto coloco uma última bala na câmara

puxando o cão para

desvendar a fina teia que cimenta a modernidade


comei do chão

rezai aos demónios

amai os degenerados

ante o despertar da amena quimera concupiscente,

no pior dos cenários

haverá a certeza de que alcançámos uma fugaz satisfação